A desigualdade econômica entre as diversas regiões do Brasil reflete diretamente em todos os segmentos econômicos e, como não poderia deixar de ser, no futebol. Esse é um dos principais motivos para o futebol do nordeste viver uma intensa crise, com seus clubes não conseguindo se manter na série A do campeonato brasileiro, patinando na série B e loteando em maior número apenas as séries C e D.
O atual modelo de organização do futebol brasileiro e a retrógrada gestão dos clubes agravam a crise. Mas, sem dúvida, é a pobreza da região, a baixa movimentação econômica nela existente, se comparada as regiões sul e sudeste, que levam os clubes do nordeste a uma situação grave, incômoda, que precisa ser pensada e revertida com urgência, sob pena de diversos clubes tradicionais da região se apequenarem ainda mais.
Como o melhor retrato dessa crise pode-se tomar como exemplo exatamente um dos poucos clubes da região na série A, o Vitória, que tem um razoável nível de organização e uma boa infra-estrutura, além de estádio próprio.
Pois bem: o Vitória, segundo recente declaração de seu presidente, tem previsto para 2010 um orçamento em torno de R$30 milhões.
Um clube com esse orçamento, de forma realista e salvo uma grata surpresa, não pode esperar, no nível nacional, nada além de uma razoável campanha na Copa do Brasil e a luta, no campeonato brasileiro, para manter-se na série A, tentando, no máximo, a classificação para a Sul-americana. Nada além disso.
O mesmo dirigente, aliás, foi muito sincero e consciente, ao afirmar que foi mais fácil subir da série C para B e da B para A, do que manter-se nela. Não é a toa que anuncia isso, pois sabe que o seu orçamento de todo ano equivale a apenas dois ou três meses do orçamento dos grandes clubes de sul e sudeste.
Tem-se, portanto, uma enorme desigualdade de competição, uma disputa verdadeiramente desleal, dado que os principais patrocinadores do futebol e as melhores cotas somente são destinadas aos grandes clubes do sul e sudeste.
Se em outros segmentos econômicos a desigualdade entre as regiões reduziu, no futebol apenas aumentou. Até 20, 15 anos atrás, os clubes do nordeste ainda conseguiam competir, com algum esforço (mas competiam) com os clubes das regiões mais ricas. Hoje, não mais.
Como disse antes, o atual modelo organizacional do futebol brasileiro agrava essa crise, pois obriga os clubes nordestinos a disputarem, durante os quatro primeiros meses do ano, os campeonatos estaduais, todos eles deficitários e de baixo nível técnico. Vale dizer: aos clubes nordestinos, se não quiserem elevar seu déficit, somente resta a opção de montar uma equipe muito mediana para o campeonato estadual e, somente às vésperas ou no ínício do campeonato brasileiro, tentar qualificar um pouco melhor a equipe, com algumas contratações de melhor porte, mas ainda não em porte suficiente para grandes vôos, exatamente em face da incapacidade financeira.
Tome-se o exemplo do campeonato bahiano: é dosalador! Tirando os BA x VI, todos os demais jogos – na capital ou no interior – não conseguem levar aos estádios público superior a 10.000 pessoas (isso quando os estádios do interior comportam tal público), com exceção de um ou outro jogo do Bahia em Pituaçu, em face de sua numerosa e fanática torcida. Ao lado dessa realidade, outra ainda mais comprometedora: estádios, no interior, com péssima estrutura, campos mal cuidados e equipes formadas por jogadores de baixo nível técnico, quando não jogadores da base do Bahia ou Vitória, emprestados àqueles outros clubes para ganhar experiência.
Nessa mediocridade técnica e econômica, Bahia e Vitória são obrigados a conviver, iludindo-se, ao final, com a conquista do título de um campeonato bahiano, cuja baixa qualidade dos demais times se escancara também quando disputam as série C ou D do campeonato brasileiro e sequer avançam da primeira ou segunda fase.
Como os clubes nordestinos ainda dependem muito das rendas dos estádios, é fácil perceber o déficit de caixa que logo no começo do ano neles se instala.
E os patrocínios? Mencionei antes que os grandes investidores no futebol, atualmente, apenas têm olhos para os grandes clubes do sul e sudeste, o que, registre-se, é plenamente justificável, porque são eles que a mídia expõe com maior intensidade e que disputam as primeiras posições da competição nacional ou participam da Libertadores.
As empresa nordestinas – com raras exceções – não investem, ou não acreditam, no futebol da região. A dificuldade dos clubes do nordeste conseguirem patrocínios é imensa e, quando conseguem, não se tem valores que permitam a esses clubes formar grandes equipes ou melhorar sua estrutura física ou das divisões de base.
A equação negativa é simples: baixas rendas (ao menos nos primeiros quatro meses), patrocínios em valor insuficiente, cotas de televisão menores; resultado: formação de equipes modestas, que não permitem grande êxito na série A e, somente aqui e ali, algum êxito na série B, com consequente desalento das torcidas.
Os números refletem isso. A série A, em 2010, terá apenas dois clubes nordestinos: o Vitória e o récem promovido Ceará. Portanto, somente um clube do nordeste obteve o acesso da série B para A, enquanto dois – Náutico e Sport – caíram da A para a B. Na série B, em 2010, serão seis clubes do nordeste, valendo acentuar que, dos quatro que, em 2009, caíram para a série C, três – ABC, Campinense e Fortaleza - são nordestinos, enquanto apenas dois – ICASA e ASA - ascenderam da C para a B.
Ano após ano, reduz-se, assim, a participação dos clubes nordestinos nas séries A e B. A rigor, nos últimos anos, eles têm apenas transitado por dois a quatro anos na série A.
É preciso, com urgência, se pensar e discutir esse fenômeno negativo que vem, ano a ano, apequenando o futebol da região. Essa discussão pressupõe a união dos principais clubes do nordeste (Bahia, Vitória, Sport, Náutico, Santa Cruz, Ceará, Fortaleza, entre outros) para buscar soluções conjuntas que resultem na melhoria do modelo que está atualmente vigente no futebol brasileiro (tema que comentarei outro dia) e no incentivo para as empresas mais poderosas da região patrocinarem com mais efetividade os clubes locais. Por sua vez, os clubes terão que assumir também sérios compromissos de melhoria da gestão.
Não se enganem: a crise é séria e não se pode iludir o torcedor! Mantida a situação atual, somente aumentará na região, especialmente entre os mais jovens, a torcida do Flamengo, São Paulo, Corintians e outros clubes de outros Estados brasileiros, quando não de outros países (Barcelona, Real Madrid, Milan etc.) e o emprobecimento e mesmo o desaparecimento de alguns desses tradicionais clubes nordestinos será inevitável.